sábado, 26 de novembro de 2011

MINHA PASSAGEM PELO MOVIMENTO DE CRESCIMENTO DE IGREJAS..Phil A. Newton

flaviofe.santana478@gmail.com






Há pouco tempo, um amigo ouviu este admirável comentário de um membro de uma grande igreja evangélica que está crescendo rapidamente: "Temos um pastor maravilhoso! Ele realmente prega a Palavra; fala contra o pecado, chamando-o pelo seu nome".Quando meu amigo perguntou sobre o conteúdo doutrinário das mensagens ("O pastor fala sobre doutrinas como regeneração, justificação, redenção, santificação e outras semelhantes?"), a enfática resposta foi: "Não, ele não prega a respeito desse tipo de coisas!"Como podemos harmonizar uma igreja crescente, com a falta de ensino doutrinário na pregação? Se doutrinas não estão sendo ensinadas, pode qualquer igreja considerar que está em harmonia com o padrão do Novo Testamento? Esta era a situação em que eu me encontrava há alguns anos passados.



Retornando à Escola:
Em meu terceiro pastorado, senti-me desanimado diante da falta de crescimento numérico em nossa igreja. Havia participado de conferências e seminários que promoviam crescimento, crescimento, crescimento como o objetivo final para os pastores. Ouvi pastores respeitados em nossa denominação e, com freqüência, desejava que a minha igreja tivesse o mesmo tipo de crescimento que as igrejas deles haviam experimentado. Por fim, meu desânimo levou-me a agir. Após algumas mudanças radicais na organização de nossa própria igreja, vi o número de membros aumentar. Estava satisfeito e motivado para buscar mais crescimento. Não sou muito a favor de realizar as coisas pela metade; por isso, conclui que a melhor mudança a fazer seria estudar o crescimento de igreja, em sua fonte, o Seminário Teológico Fuller, em Passadena (Califórnia). O primeiro seminário, de duas semanas, incluso no programa de Bacharel em Ministério, no Fuller, foi ministrado por C. Peter Wagner, o principal porta-voz do Movimento de Crescimento de Igrejas. Este havia sido missionário na América do Sul e retornou à universidade em que estudara para ensinar juntamente com o falecido Donald McGavran. Enquanto McGavran, que fora missionário na Índia, é bem conhecido como o "pai do Movimento de Crescimento de Igrejas", Peter Wagner certamente possui o título de ser o melhor proponente desse Movimento. Em preparação para este seminário, li diversas obras escritas por Wagner e por outros autores do Movimento.

Achei Wagner um professor interessante que se apresentava bem, alguém capaz de produzir animadas discussões em sala de aula. Munido de transparências e grande quantidade de anotações, Wagner começou a esclarecer aos alunos os princípios básicos do Movimento. O pragmatismo pode resultar em crescimento numérico, mas não pode regenerar um homem incrédulo. Percebi que estava aceitando cada palavra falada na aula, embora, às vezes, ficasse apreensivo diante de algumas afirmativas. Wagner jamais recuava quando, na classe, era confrontado por causa de discordâncias, ainda que estas fossem freqüentes. Ele afirmava que as críticas e a correção eram bem-vindas para o Movimento de Crescimento de Igrejas, pois constituíam a melhor maneira de aprimorá-lo.

Continuei meus estudos, no Fuller, com grande ênfase em crescimento e implantação de igrejas. Mais da metade do tempo de nossa aula dedicava-se a estudar o crescimento de igreja. Wagner ministrava as principais aulas; o outro professor era John Wimber, o fundador das igrejas Vineyard. Este ensinava sobre o controverso assunto de "sinais e maravilhas" e sua relação fundamental no crescimento de igreja. Por ocasião de minha formatura, estava completamente encharcado com a "filosofia do Movimento de Crescimento de Igrejas" e a ampla influência deste sobre o evangelicalismo.

Muito do que aprendera era simplesmente trivial. Detalhes acerca do estacionamento, preparo de equipe adequada, localização, otimização no uso de equipamentos, treinamento de liderança leiga, utilização de dons espirituais e diagnóstico de fraquezas de igrejas constituem assuntos que podem ser facilmente encontrados em livros sobre crescimento de igrejas. Este ensino pode tornar-se útil a qualquer líder de igreja. As igrejas devem ter sabedoria para se avaliarem por si mesmas.

O Movimento de Crescimento de Igrejas também fornece uma boa análise sobre a fraqueza das cruzadas evangelísticas e sobre a grande eficácia do evangelismo pessoal. Coloca ênfase sobre alcançar os "campos que estão brancos para a ceifa", em esforços para atingir os perdidos e fazer as igrejas crescerem. Uma intensa ênfase sobre "fazer discípulos", em contraste com o simples "evangelizar", ajuda a corrigir a atitude de inchar o rol de membros da igreja com pessoas não-convertidas. As estatísticas fornecidas pelos líderes do Movimento podem dar às igrejas uma melhor assimilação da necessidade espiritual dos povos.

Pouco a pouco, comecei a perceber as falhas em meu próprio ministério e em todo o Movimento de Crescimento de Igrejas. Embora tenha encontrado muitas idéias úteis ao estudar sobre o Movimento de Crescimento de Igrejas, também percebi que estava envolvido em uma "mentalidade" cujo preço comprovou-se elevado. Edificar uma igreja seguindo os "princípios do Movimento de Crescimento de Igrejas" significava anuência ao pragmatismo, ao invés de ao cristianismo bíblico. O pragmatismo pode resultar em crescimento numérico, mas não pode regenerar um homem incrédulo. Na qualidade de pragmatista, estava interessado em descobrir métodos e artifícios que produziriam crescimento e em utilizá-los plenamente em nossa igreja. Mesmo acreditando na pregação expositiva, diminui a exposição da Palavra e segui com intensidade o apelar às necessidades sentidas da comunidade. Isto era justificável (ou assim eu pensava), pois estaria construindo uma grande igreja.



Reconsiderando os Princípios do Movimento de Crescimento de Igrejas:
Lembro-me de, em certa noite, ter visitado um estudante de teologia que estivera em nosso culto. Ele perguntou qual era a minha teologia. Respondi: "Tenho uma teologia pragmática. Quero uma teologia que funciona". Mais tarde, fiquei bravo enquanto um amigo contava-me que aquele estudante lhe dissera após minha visita: "Phil não possui uma teologia". Infelizmente, ele estava correto e isto mostrava de que maneira eu estava "realizando o ministério".
Pouco a pouco, comecei a perceber as falhas em meu próprio ministério e em todo o Movimento de Crescimento de Igrejas. No cerne do ensino de Wagner e do Movimento de Crescimento de Igrejas encontram-se princípios relacionados ao evangelismo. Wagner tem promovido de modo admirável o trabalho de evangelismo como sendo um dos mais importantes na igreja local. Quando a maneira de pensar de Wagner sobre evangelismo é examinada à luz das Escrituras, surgem algumas questões sérias. Ele divide o evangelismo nas seguintes categorias (Church Growth: State of the Art, editado por C. Peter Wagner, com Win Arn e Elmer Towns, Wheaton, Tyndale House Publishers, 1988, pp. 296-297):
1. Evangelismo de Presença. Aproximar-se das pessoas e ajudá-las, fazendo o bem no mundo. Designado evangelismo "l-P".

2. Evangelismo de Proclamação. Apresentar o evangelho; a morte e a ressurreição de Cristo é proclamada; as pessoas ouvem e podem responder. Designado evangelismo "2-P".

3. Evangelismo de Persuasão. Fazer discípulos; enfatiza a importância de não fazer separação entre o evangelismo e o acompanhamento, integrando a pessoa ao Corpo de Cristo. Designado evangelismo "3-P".
Wagner ressalta que todos os três tipos de evangelismo são importantes, mas o objetivo tem de ser a realização do evangelismo "3-P".

Poucos discordariam do fato que o evangelismo "1-P" não pode adequadamente anunciar o evangelho ao incrédulo; e que sem a presença visível daqueles que foram despertados pelo evangelho, todo o outro evangelismo seria anulado. O maior problema surge no entendimento de Wagner referente ao evangelismo "2-P". De acordo com a definição, parece ser mais do que uma pregação ou um testemunho verbal dos fatos do evangelho. Por conseguinte, o incrédulo pode determinar se os fatos apresentados são dignos de sua decisão de aceitar o evangelho.

O evangelismo "3-P" constitui o ponto central dos proponentes do Movimento de Crescimento de Igrejas. Realmente envolve tanto a presença quanto a proclamação, mas isto não é tudo. O evangelista precisa usar todos os meios à sua disposição para persuadir o incrédulo a converter-se de seu pecado e crer em Jesus, de modo que torne-se um discípulo.

Em suas aulas, Wagner serve-se da palavra grega peitho e seu emprego no livro de Atos. Ele cita Atos 13.43; 17.4; 18.4; 26.28 e 28.23-24, onde peitho é utilizada como uma referência ao apelo evangelístico. Wagner constantemente retrata esta palavra com o significado de "persuadir". Portanto, o evangelismo adequado é o evangelismo de persuasão.

O Novo Testamento está repleto de passagens referindo-se ao trabalho de evangelismo. Existem vários problemas na dedução de Wagner extraída destas passagens do livro de Atos.
  1. Em primeiro lugar, não é sábio elaborar uma teologia sobre uma parte histórica das Escrituras, a menos que não haja quaisquer passagens didáticas ou instrutivas falando sobre aquele assunto. O Novo Testamento está repleto de passagens referindo-se ao trabalho de evangelismo. A mais notável é a evidente explicação do apóstolo Paulo sobre o seu método de evangelizar: "Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego; visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: O JUSTO VIVERÁ POR FÉ" (Rm 1.16-17). Paulo declarou que o evangelho é bastante adequado por meio da obra do Espírito Santo em trazer o homem a um salvífico conhecimento de Cristo. Os primeiros discípulos jamais anunciaram insensivelmente o evangelho! Em 1 Coríntios 2.4-5, Paulo destacou que procurava anunciar o evangelho no poder do Espírito Santo, ao invés de utilizar as técnicas comuns que os gregos empregavam para controlar a mente - "A minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva [peitho, no grego] de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder, para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria humana, e sim no poder de Deus". Paulo também argumentou que os cristãos devem viver de tal modo a realidade do evangelho, que parecerão como "luzeiros no mundo", isto corresponde ao evangelismo "1-P", de acordo com a definição de Wagner. Logo em seguida, o apóstolo mostra o método apropriado de evangelismo - "preservando a palavra da vida", que mostra o crente na posição de alguém que apresenta (isto é, "proclama") aos homens incrédulos a verdade da Palavra de Deus, a qual outorga vida (Fp 1.15-16).
  2. Em segundo, o fato de Wagner utilizar peitho como base para o evangelismo de persuasão é extremamente fraco. Limitar esta palavra a apenas um significado demonstra uma falta de entendimento da amplitude da língua grega. Embora peitho seja traduzida "persuadir", em diversas passagens, também pode ser melhor traduzida por "instigar", "convencer", "seduzir", "suplicar" e, ainda, "subornar", em outros casos. O contexto determina a melhor tradução da palavra. Os primeiros discípulos... eram apaixonados pela verdade que havia transformado suas vidas. Lucas, o escritor de Atos, utilizou peitho para referir-se a certo tipo de metodologia persuasiva usada por Paulo ou outros dos primeiros discípulos? Obviamente, Lucas jamais desejaria empregar manipulação, artimanha ou engano na obra de evangelismo (ver o uso de peitho em Atos 12.20, 14.19 e 19.26, onde as idéias de "seduzir" e "subornar" são transmitidas no texto grego desses versículos). Fazer isto seria negar a necessidade da obra do Espírito Santo, a qual precisa estar no centro do verdadeiro trabalho de evangelismo (Rm 8.9, 12-17; 1Ts 1.4-5). Paulo compreendia que os pecadores compareceriam diante do Deus justo e santo, por isso se esforçava para "conquistar os homens para Cristo". Em Atos 13.43, a Bíblia "Almeida Revista e Corrigida" traduz corretamente peitho pelo vocábulo "exortar", mostrando que Paulo e Barnabé utilizaram os melhores poderes de argumentação e seu amor pela verdade, a fim de exortar os ouvintes a "perseverar na graça de Deus". Em Atos 17.4, "persuadidos" implica em que os tessalonicenses foram convencidos das coisas que Paulo e Silas haviam proclamado. Lucas já havia afirmado que Paulo "arrazoou com eles, acerca das Escrituras, expondo e demonstrando ter sido necessário que o Cristo padecesse e ressurgisse dentre os mortos" (17.2-3). Essas palavras descritivas demonstram que ocorreu um intenso intercâmbio intelectual, quando os mensageiros utilizaram as provas das Escrituras, uma série de perguntas e respostas ("arrazoou", no grego, dialegomai), e toda a sua capacidade de questionamento, para convencê-los da verdade. Paulo e seu companheiro, com muito ardor, anunciaram a Palavra de Deus àquelas pessoas incrédulas, apelando, com a verdade, às suas mentes (ver também Atos 18.4 e 28.23, onde peitho é mais naturalmente traduzida por "persuadir").
  3. Em terceiro, a idéia do evangelismo "3-P" sugere que a proclamação no evangelismo "2-P" carece do poder de persuasão. Os primeiros discípulos jamais anunciaram insensivelmente o evangelho! Eles eram apaixonados pela verdade que havia transformado suas vidas. A sua apresentação do evangelho continha uma argumentação consistente e lógica. Eles apelavam à mente dos incrédulos, ao invés de procurarem manipular uma "decisão por Cristo", recorrendo, em primeiro lugar, à vontade e às emoções. A passagem de Atos 17 mostra isso de maneira conclusiva, assim como toda a narrativa do livro. Paulo... procurava os perdidos, anunciava-lhes com intenso amor o evangelho, mas dependia do poder do Espírito Santo para salvá-los.
No século 19, Charles Haddon Spurgeon foi conhecido como o supremo exemplo de um verdadeiro evangelista. O alcance de seu evangelismo tornou-se mais amplo do que o de qualquer outro em seus dias. Ele poderia ter sido acusado de usar de manipulação ou métodos emocionais de evangelismo centralizados no homem. Todavia, ninguém o acusaria de proclamar o evangelho sem amor e persuasão. O próprio evangelho, ao ser anunciado de maneira correta, é persuasivo! E este evangelho, quando crido para a salvação, devido à obra de regeneração realizada pelo Espírito Santo, produz verdadeiros discípulos. O verdadeiro evangelismo se esforça por anunciar, com amor e clareza, todo o evangelho de Cristo, na dependência do Espírito Santo para salvá-los.

Finalmente, ao mesmo tempo em que concordo com Wagner, ao afirmar que temos de ser persuasivos ao apresentar o evangelho, a ênfase dele coloca indevida confiança na habilidade do evangelista para realizar conversões. Tal confiança não corresponde ao ensino das Escrituras (ver 1 Co 2.1-16; cf. também a excelente discussão de Iain Murray sobre este assunto, em Revival and Reavivalism [Avivamento e Avivalismo], Banner of Truth Trust, 1994, pp. 161, ss.). O apóstolo Paulo estava tão dominado pela certeza do julgamento divino, que afirmou: "Conhecendo o temor do Senhor, persuadimos os homens" (2 Co 5.11). O significado natural deste versículo é este: Paulo compreendia que os pecadores compareceriam diante do Deus justo e santo, por isso se esforçava para "conquistar os homens para Cristo". Ele procurava os perdidos, anunciava-lhes com intenso amor o evangelho, mas dependia do poder do Espírito Santo para salvá-los. Aqueles que o Espírito salvasse inevitavelmente se tornariam parte da igreja visível.

O verdadeiro evangelismo se esforça por anunciar, com amor e clareza, todo o evangelho de Cristo, na dependência do Espírito para salvá-los. Esse evangelismo resultará na obra de integrar o novo crente à igreja. A disparidade ocorre quando o evangelista considera a si mesmo e aos seus métodos como chaves para a salvação dos homens, ao invés da obra regeneradora da parte do Espírito Santo. Somente por meio do ato regenerador proveniente do Espírito Santo, o pecador realmente pode ter uma mudança de natureza.

Wagner fundamenta sua classificação de evangelismo na "Escala de Engel" , que é um "modelo do processo de decisão espiritual" desenvolvido por James Engel. A escala tem uma série de números negativos e positivos que descreve o processo de evangelismo:
-8 Consciência de um Ser Supremo, mas não um conhecimento eficaz do evangelho.
-7 Conhecimento inicial do evangelho.
-6 Conhecimento dos fundamentos do evangelho.
-5 Assimilação das implicações do evangelho.
-4 Atitude positiva para com o evangelho.
-3 Reconhecimento do problema pessoal.
-2 Decisão de fazer algo.
-1 Arrependimento e fé em Cristo.
Regeneração - Uma "Nova Criatura"
+1 Avaliação após a decisão.
+2 Integração no Corpo
+3 Início do crescimento informativo e comportamental.
O problema básico na "Escala de Engel"é a reversão da ordem bíblica referente ao arrependimento e fé em Cristo e à Regeneração - uma "Nova Criatura". Seguindo a lógica desta escala, alguém poderia imaginar que um pecador precisa apenas começar a entender as implicações fundamentais do evangelho, reconhecer seu "problema pessoal" (uma maneira amena de se transmitir a idéia de "pecado") e tomar a decisão de ser salvo. Aquilo que Wagner admite concernente à regeneração implica em que um pecador não tem de ser totalmente depravado ou morto em seus delitos e pecados.
Ao contrário disso, a regeneração antecede o arrependimento e a fé, conforme está claramente ensinado nas Escrituras, em muitas passagens que falam sobre a regeneração (observe os seguintes versículos que a ela se referem: Tito 3.5, onde o vocábulo grego paliggenesia significa "um novo nascimento"; Efésios 2.5 e Colossenses 2.13, sunezoopoisen significa "vivificar juntamente com"; João 3.3 e 5, gennao significa "ser nascido, gerado"; Tiago 1.18 apekuasen significa "dar à luz", "gerar"). "Nenhum rio pode, de si mesmo, correr em uma direção mais elevada do que sua nascente..."

A grande premissa de Wagner é esta: se o incrédulo for persuadido a tomar a decisão de se arrepender e crer, então será regenerado. A atitude do pecador, por conseguinte, causa a sua própria regeneração. Ele tem a capacidade de fazer uma escolha voluntária e apropriada em relação ao evangelho, se receber evangelismo de persuasão ou "3-P". De que maneira a natureza do pecado o torna bastante capaz de arrepender-se e crer? Se o problema espiritual do pecado resulta não somente de seu comportamento pecaminoso mas também de sua natureza corrupta, concluímos: até que sua natureza seja mudada, ele não haverá de arrepender-se e crer; fazer isto será contrário à sua própria natureza. Além disso, como pode um morto vivificar a si mesmo (o que ocorre na regeneração)? Isto é apresentado com clareza em Efésios 2.1-5, onde Paulo afirma duas vezes que a pessoa não-regenerada está morta. "Se o homem está realmente morto em delitos e pecados, ele é incapaz de manifestar qualquer virtude que contenha, em si mesma, o elemento da verdadeira santidade ou vida espiritual." C. R. Vaughan, em The Gifts of the Holy Spirit (Os Dons do Espírito Santo), explica a incapacidade do homem em libertar-se de sua natureza pecaminosa e seguir a fé, o arrependimento e a santidade: "Nenhum rio pode, de si mesmo, correr em uma direção mais elevada do que sua nascente; nenhuma natureza pode transcender a si mesma na manifestação de suas energias. Se o homem está realmente morto em delitos e pecados, ele é incapaz de manifestar qualquer virtude que contenha, em si mesma, o elemento da verdadeira santidade ou vida espiritual" (Banner of Truth Trust, 1984, p. 175). Contudo, no paradigma de Wagner, o evangelista tenta convencer um pecador a fazer algo que não deseja. Sua natureza exige que ele se rebele contra o evangelho, ao invés de aceitá-lo. Somente por meio do ato regenerador proveniente do Espírito Santo, o pecador realmente pode ter uma mudança de natureza; isto o leva a perceber que está separado de Deus, por causa do pecado, e, em seguida, a apropriar-se da obra propiciatória de Cristo em favor dele, de modo que, com alegria, ele se arrepende e crê em Cristo. Assim como no vale de ossos secos contemplado por Ezequiel, o pecador está morto para as coisas de Deus, até ser despertado pelo Espírito, que outorga a vida, no novo nascimento (compare João 3.1-7 com Ezequiel 37, onde "o Espírito" e "o vento" referem-se à mesma Pessoa divina e sua obra).

A prioridade no evangelismo "3-P", do Movimento de Crescimento de Igrejas, demonstra que o evangelismo "2-P" não é capaz de realizar a obra. O evangelismo de proclamação apenas abre a porta para fazer a luz do evangelho entrar, de modo que o incrédulo possa ouvi-lo bem, mas fica aquém de se tornar um discípulo. O evangelista tem de utilizar os métodos, as abordagens e as técnicas corretas para realmente fazer um discípulo. Precisa apelar às necessidades sentidas do pecador, para que este se interesse pelo evangelho.

Neste ponto, o Movimento apresenta um amplo conjunto de princípios e axiomas que, empregados corretamente, podem quase garantir os resultados. O Movimento de Crescimento de Igrejas prosperou fundamentado nesse ponto de vista extremamente arminiano acerca do evangelismo. Seminários, conferências, palestras, livros, módulos com esse tipo de abordagem inundaram o cristianismo evangélico. Os crentes de todas as denominações estão utilizando os princípios do Movimento de Crescimento de Igrejas para conquistar grandes números e estabelecerem igrejas enormes. A proclamação da Palavra de Deus não possui mais o lugar central nessas igrejas. O ensino da sã doutrina é considerado algo desnecessário e antiquado. Em seu lugar, métodos e grandes realizações se tornaram o atrativo para as pessoas freqüentarem as igrejas e decidirem tornar-se membros delas. Enquanto estas igrejas falam sobre a obra do Espírito Santo, negligenciam sua dependência da obra regeneradora proveniente dEle.



Revolução Teológica
Após concordar com a teologia bíblica dos fundadores de nossa denominação, comecei a duvidar dos princípios do Movimento de Crescimento de Igrejas, os quais eu havia aprendido. Enquanto estudava e pregava expositivamente sobre Efésios, todo o meu conceito acerca daquele Movimento foi estilhaçado pela verdade da Palavra de Deus. Estudando, com intensa meditação, Efésios 1.1-14, durante um período de dois meses, tive de concordar com algumas doutrinas que, durante alguns anos, eu evitara cuidadosamente. Pensei muito sobre a soberania de Deus e a depravação do homem, crendo nessas verdades tanto quanto podia entendê-las. Porém, deixara de perceber que, se acreditava no ensino bíblico a respeito da soberania de Deus e da total depravação do homem, a conclusão lógica a que eu deveria chegar era o equilíbrio das "Doutrinas da Graça", que Edwards, Whitefield, Spurgeon, Boyce e outros ensinaram. Qualquer coisa inferior a isso retrataria Deus como alguém não completamente soberano, e o homem, não totalmente depravado.

Minha teologia precisava determinar minha atitudes no ministério e vida diária. Por conseguinte, deparei-me com a pergunta: se a conversão é totalmente uma obra da graça divina, então quem sou eu para imaginar que minhas técnicas e métodos podem converter uma alma sequer? Compreendi que minha teologia precisava determinar minha atitude no ministério e vida diária ou seria um hipócrita em ambos. Comecei a abandonar a maioria dos ensinos que havia recebido em meus anos de estudo no Movimento de Crescimento de Igrejas (exceto os princípios de bom senso e aqueles apresentados claramente nas Escrituras). Procurei concentrar-me em ensinar a Palavra de Deus, com clareza, pureza e amor, abordando as doutrinas encontradas nos textos dos sermões de cada semana. Voltei à minha tarefa de pregação com uma nova convicção de pregar "todo o desígnio de Deus".
Essa radical mudança na teologia aconteceu no outono de 1990. Precisava participar de dois seminários para meu diploma de bacharel, mas alegremente eu os dispensei em troca da bênção de passar quinze meses estudando Efésios. A cada semana examinando o texto grego, lendo Martin Lloyd-Jones, John MacArthur, Leon Morris, John Stott e outros forneceu-me um claro entendimento de toda a gloriosa mensagem de redenção. Voltei à minha tarefa de pregação com uma nova convicção de pregar "todo o desígnio de Deus" (At 20.27). Sabia que nem todos receberiam com satisfação aquilo que eu estava pregando, mas tinha a responsabilidade de, paciente e transparentemente, anunciar a Palavra, deixando o Espírito fazer a obra necessária.

Esta mudança aconteceu com a aprovação de todos em nossa igreja? Absolutamente, não! Na verdade, descobri uma disposição em muitos que sentiam intenso desejo para que a verdade de Deus fosse proclamada sem apologia ou temor dos homens. Alguns adquiriram uma maravilhosa liberdade de andar na verdade de Deus. Outros lutaram contra a Palavra de Deus, perseverando com firmeza em crenças que haviam sido danificadas pela experiência e pelas tradições.

Descobri que afastar-me das práticas do Movimento de Crescimento de Igrejas, para realizar um ministério de acordo com o legado dos fundadores de nossa denominação, poderia não alcançar as massas (embora esteja orando e esperando para ver muitos virem a Cristo e serem trazidos à igreja). Em alguns casos, realmente enfrentamos oposição. Todavia, a grande motivação do meu coração e mente é que um dia terei de responder ao soberano Senhor pela maneira como realizei minha chamada. Minha observação é que muito freqüentemente os pastores conduzem seus ministérios de acordo com as expectativas de outros. A pressão exercida sobre os ministros, para que edifiquem igrejas enormes, conquistem grandes números de ouvintes e produzam uma multidão de convertidos constrange alguns a beberem tudo que procede das fontes do Movimento de Crescimento de Igrejas. Quando isso acontece, o ministro inevitavelmente compromete sua responsabilidade de pregar a Palavra e depender da obra do Espírito Santo. Ele corre de uma técnica para outra, agarrando cada nova idéia vinda dos proponentes do Movimento.
Qual é a motivação do ministro do evangelho para fazer tudo o que ele faz? É realmente a glória de Deus e o amor pelo seu reino? Alguns podem admirar-se de mim e perguntar: "Você acredita em crescimento de igreja?" Com certeza, eu acredito. Desejo muito ver o crescimento realizado pela obra do Espírito Santo e a proclamação fiel da Palavra de Deus. Porém, se a Palavra e o Espírito não podem realizá-lo, não o quero! De fato, um dia, eu creio, nosso Senhor se deleitará em agir sobre nossa congregação e comunidade com poder, e esse poder despertará os homens. Então, eles saberão que a salvação dos pecadores não vem por meio de nossas técnicas perspicazes, nem por implementarmos os princípios de crescimento de igreja, e sim pela soberana graça do todo-glorioso Deus.


Deus não pode enviar a uma nação ou a um povo maior bênção do que dar-lhes ministros fiéis, sinceros e retos, assim como o maior anátema que Deus possa dar ao povo deste mundo é dar-lhes guias cegos, não-regenerados, carnais, mornos e ineptos. George Whitefield

O fato é que muitos gostariam de unir igreja e palco, baralho e oração, danças e ordenanças. Se nos encontramos incapazes de frear essa enxurrada, podemos, ao menos, prevenir os homens quanto à sua existência e suplicar que fujam dela. Quando a antiga fé desaparece e o entusiasmo pelo evangelho é extinto, não é surpresa que as pessoas busquem outras coisas que lhes tragam satisfação. Na falta de pão, se alimentam com cinzas; rejeitando o caminho do Senhor, seguem avidamente pelo caminho da tolice. Charles Haddon Spurgeon


autor: Phil A. Newton
tradutor: anônimo

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Diamantes e Zirconita. Até Para um Joalheiro Pode Ser Difícil Distinguir


Alguns anos atrás, uma das cadeias de lojas de departamentos na nossa região usou uma engenhosa estratégia de marketing — eles vendiam "cubos de gelo" plásticos contendo água e dentro de um dos cubinhos havia uma zirconita. As pedras eram virtualmente invisíveis na água congelada e não era possível identificar o tamanho ou a lapidação delas. O consumidor interessado pagava um preço módico pelo cubo de gelo que continha a imitação de um diamante, mas a propaganda dizia que um dos cubos era premiado e continha um diamante real, avaliado em algumas centenas de dólares. Como as imitações eram boas e o preço módico, minha mulher comprou um cubo e observei o joalheiro remover a água, revelando uma linda pedra multifacetada. Ela brilhava sob as luzes artificiais da loja e, tanto quanto pude ver, era tão bonita quanto um diamante real. Imagine minha surpresa quando o joalheiro não examinou a pedra usando uma lupa, o instrumento tradicional utilizado para aferir um diamante genuíno e suas características, mas em vez disso, utilizou um aparelho eletrônico de teste. Quando perguntei o motivo, ele me disse que era realmente a melhor forma de distinguir a imitação da pedra verdadeira! As diferenças em coloração podiam ser notadas usando-se uma lupa, mas as imitações eram literalmente perfeitas. Assim, para evitar enganos, ele usava um aparelho eletrônico de aferição.
Pensando sobre isso, observei que há um paralelo com a vida cristã. Satanás vem fazendo um trabalho de mestre, colocando falsificações entre as ovelhas. Elas parecem ovelhas, agem externamente como ovelhas, aparentemente acreditam serem ovelhas — e em muitas áreas até se sobressaem mais do que as verdadeiras ovelhas — mas apesar disso tudo, são falsas e não têm Jesus Cristo em seus corações como Senhor e Salvador. Esses cupins espirituais causam muitos danos ao corpo de Cristo, por causa de seus raciocínios carnais e da resistência à liderança do Espírito Santo na vida da igreja. A epidemia de divisões de igrejas que ocorreu nos últimos anos deve nos dar uma indicação da conseqüência desse câncer espiritual no nosso meio. Um pouco de joio entre o trigo é inevitável, mas grande parte dele poderia ser evitado se o povo de Deus simplesmente utilizasse o "instrumento especial" que Ele nos oferece. Somos continuamente exortados na Palavra de Deus a ficar de guarda contra aqueles que querem nos enganar com palavras fingidas (2 Pedro 2:3) — usando-nos para atingir seus objetivos sociais e políticos. Na Bíblia, o próprio Senhor, bem como os apóstolos, disseram que isso aconteceria e que pioraria ainda mais no fim da época da igreja. É por isto que Cristo disse: "Pelos seus frutos os conhecereis." O exercício constante e persistente do discernimento e da vigilância espiritual é o instrumento de teste que Deus nos deu para nos permitir separar o genuíno do falso. E a prática bíblica da separação é a cura!
Nossas igrejas e pastores tornaram-se tão obsessivos com o jogo dos números que literalmente aceitam qualquer pessoa que afirme ter uma experiência de salvação. "Sim, pastor, aceitei a Cristo como meu Salvador e estou pronto para ser batizado e jogar vôlei na quadra da igreja. Quando será a próxima reunião de sociabilidade?" é a atitude de muitos dos novos "convertidos". Mas, enquanto eles aparecerem ocasionalmente nos cultos e contribuírem com dízimos e ofertas, seus nomes estarão no rol de membros e ajudarão a aumentar o ego do pastor, que pensa estar "edificando uma igreja". O que, a propósito, não tem base bíblica alguma, pois o Senhor disse em Mateus 16:18 que Ele edificará sua igreja:
"Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela."
Logicamente, a pedra (petra, no original grego), refere-se ao próprio Senhor Jesus Cristo, não ao apóstolo Pedro, como afirma a Igreja Católica (e seus teólogos sabem muito bem o jogo de palavras que ocorre aqui no texto grego original entre petra e petros).
Como já mencionei em outros artigos, muitos pastores passam noites acordados tentando imaginar novos esquemas de atrair mais pessoas às igrejas, para que possam evangelizá-las e alcançar os alvos numéricos. Mas eles estão realmente sendo pescadores de homens ou estão fazendo o papel de trouxas? Isso me faz lembrar a história que aconteceu com um velho pastor. (É uma história verídica que me foi contada por um colega pastor.) Esse velho pastor morava em uma pequena cidade rural de apenas 150 habitantes e quase todos eram membros da igreja. Bem, com o passar do tempo, ele ficou desanimado, pois sua igreja não estava experimentando o tipo de crescimento que os gurus especialistas dizem que uma igreja deve ter. A pequena igreja desse velho pastor tinha o mesmo número de pessoas há vários anos e os únicos convertidos batizados eram os filhos dos membros, de modo que ele estava perplexo com a situação. No entanto, fez o que deveria: começou a orar sobre o assunto, pedindo a orientação de Deus. Um dia, ao dirigir até o armazém, observou que um cachorro grande tinha sido atropelado e seu cadáver ficara estendido ao lado da estrada. Como ele não sabia quem era o dono do animal, ao chegar em casa, comentou o fato com sua mulher. Mas, como ela também não sabia de quem era o cachorro, ele acabou se esquecendo do assunto. No entanto, alguns dias depois, ao passar novamente por aquele local, notou que o corpo do pobre animal ainda estava lá, começava a mostrar sinais de putrefação e estava visivelmente maior, mais inchado. Então, subitamente, ocorreu na sua mente que o problema com a igreja podia ser explicado por essa analogia. O cachorro grande tornara-se maior ainda, mas estava morto por dentro! Essa poderia ser a descrição da sua igreja?
Em toda a parte, os púlpitos de muitas igrejas estão sendo ocupados por pastores zirconita e eles estão encantando as multidões com seu charme, carisma pessoal e seus sermões sobre o amor e suas lições de Psicologia "sinta-se bem consigo mesmo" — mas lembre-se das graves palavras que Jesus disse logo após "Pelos seus frutos os conhecereis":
"Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não fizemos muitas maravilhas? E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade." [Mateus 7:21-23].
Dentro do contexto, esses versos estão falando dos "falsos profetas" — "lobos em pele de ovelha" (verso 15) — e referem-se aos pregadores apóstatas e não-salvos durante esta Época da Graça. Observe que esses homens (e atualmente, muitas mulheres) "profetizam" em nome de Cristo. Originalmente, isso significa anunciar a literal Palavra de Deus, que podia não ser conhecida por nenhum outro meio — como era feito pelos profetas do Antigo Testamento. No entanto, nos dias atuais, com o cânon do Novo Testamento completo, os pregadores ainda expõem a literal Palavra, mas ela já foi revelada em sua totalidade. Assim sendo, cada cristão individual é responsável por conhecer se um pregador está anunciando a verdade da Palavra ou não! Se ele vem com algo novo ou que não parece exatamente correto, as pessoas que estão sentadas nos bancos devem fazer uma verificação, porque como ser humano, o pastor está sujeito a erros. Quando dizemos "amém", estamos concordando com o que foi dito; portanto, tenha certeza absoluta daquilo com o que está concordando. Além disso, precisamos exercer o discernimento espiritual e atentar para as ações dos pastores e dos outros irmãos na igreja, porque as ações sempre falam mais alto do que as palavras.
Observe que os indivíduos referenciados pelo Senhor também expulsam demônios em nome de Cristo e operam muitas maravilhas, mas não estão entre o número de seus eleitos. Esse fato soberbo é a razão pela qual imploro com aqueles que insistem em enfatizar os "sinais e maravilhas" para se acautelarem! Os milagres realizados nos ministérios dos apóstolos e evangelistas na igreja primitiva tinham o propósito específico de autenticar a mensagem que estava sendo pregada. Uma vez que o cânon das Escrituras ficou completo, esses sinais e maravilhas não são mais necessários e cessaram de ocorrer. Aquilo que passa como sinais e milagres hoje (falar em línguas, curar, etc.) foi "redescoberto" somente no início do século 20 e deve ser encarado com a máxima cautela. Deus pode dar a um de Seus servos a capacidade de falar em um língua estranha que a pessoa nunca estudou antes? Certamente que sim. Deus pode dar a um de Seus servos a capacidade de orar em "línguas celestias"? Certamente. Mas a pergunta mais importante é, "Ele ainda faz isso atualmente?" Não quero parecer irreverente, mas minha próxima pergunta sobre o que se refere à prática desses "dons" na atualidade é: O que eles fazem de bom pela causa de Cristo? O propósito certamente não pode ser ainda validar a autenticidade da mensagem que está sendo pregada, como era o caso originalmente. Tudo o que Deus quer que saibamos está incluído na Bíblia e qualquer conhecimento revelado a alguém que fala em línguas — além do que já está revelado na Bíblia — viola as proibições dadas em Deuteronômio 4:2 e Apocalipse 22:18-19 sobre o acréscimo ou diminuição da Palavra de Deus! Aqueles que insistem serem profetas inspirados nos dias atuais precisam considerar essa verdade básica. Novamente, digo a todos: acautelem-se!
Lembre-se que a zirconita é muito parecida, mas não é diamante genuíno. Milhões de "cristãos" hoje estão absorvendo entusiasticamente qualquer coisa que seja supostamente espiritual e envolvendo-se em práticas carnais e que desonram o nome de Jesus Cristo, sob o disfarce de adoração. Os mascates religiosos estão ficando podres de ricos com as manias evangélicas, provendo aquilo que parece fazer sentido às naturezas depravadas, mas que na realidade não têm base nas Escrituras. As velhas e preciosas doutrinas bíblicas estão sendo totalmente ignoradas e "coisas aprazíveis" (Isaías 30:10) estão sendo pregadas para agradar aos mortos espirituais. Cegos estão guiando outros cegos (Mateus 15:14 e 23:16) e estão ficando perigosamente próximos do abismo eterno. Estamos obviamente vivendo em um tempo de crescente apostasia que, sem dúvida, culminará na apostasia total que ocorrerá simultaneamente ao aparecimento do Anticristo. [2 Tessalonicenses 2:1-12].
Qual é a resposta correta a tudo isso, se você reconhece que essa é a nossa situação? A resposta encontra-se em 2 Coríntios 6:14-18, que diz assim:
"Não vos prendais a um jugo desigual com os infiéis; porque, que sociedade tem a justiça com a injustiça? E que comunhão tem a luz com as trevas? E que concórdia há entre Cristo e Belial? Ou que parte tem o fiel com o infiel? E que consenso tem o templo de Deus com os ídolos? Porque vós sois o templo do Deus vivente, como Deus disse: Neles habitarei, e entre eles andarei; e eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo. Por isso saí do meio deles, e apartai-vos, diz o Senhor; e não toqueis nada imundo, e eu vos receberei; e eu serei para vós Pai, e vós sereis para mim filhos e filhas, diz o Senhor, o Todo-Poderoso."
O povo de Deus precisa desesperadamente sair de qualquer igreja que tenha se desviado do caminho espiritual correto em que antes militava, e procurar a companhia de outros cristãos que queiram adorar a Deus em espírito e em verdade. A igreja primitiva reunia-se nas casas e, sinceramente, acredito que essa pode ser a única alternativa viável para muitos cristãos nos dias atuais. Freqüentemente, algumas pessoas me escrevem pedindo a recomendação de uma igreja e fico entristecido porque não posso mais recomendar genericamente uma denominação e somente posso recomendar algumas poucas igrejas que conheço pessoalmente, devido aos desvios doutrinários que estão ocorrendo em toda a parte. A maioria daqueles que são mais conservadores e fundamentalistas em suas crenças está envolvida em planos, programas e/ou música carnal e mundana no serviço de louvor — tudo de acordo com o plano de favorecer o jogo dos números e sem qualquer base bíblica. Amados, nossas igrejas devem ser centros de adoração ao Senhor e não clubes sociais voltados para o atendimento às vontades dos potenciais convertidos/membros. Não se engane sobre uma coisa: Deusvai salvar Seu povo de seus pecados e, contrariamente à opinião popular, não precisa que façamos o trabalho para Ele! Testemunhar e evangelizar são privilégios e aqueles que forem fiéis nessas atividades receberão galardões no céu, mas é Deus quem salva, não nós. Nunca houve e nem nunca haverá alguém que tenha sido "convencido por palavras humanas" a receber Jesus Cristo como Salvador. Não, eles ou respondem à mensagem sobrenatural do evangelho e crêem, ou não. É simples assim. Não é uma questão de entender mentalmente, mas de ter seu coração quebrantado pelo próprio Deus e esse fato está sendo negligenciado pela maioria das igrejas e pastores atualmente. Milhões estão aprendendo a "como testemunhar" e "como ganhar almas para Cristo", como se fossem meras técnicas que podem ser aprendidas para produzir resultados. Que Deus nos perdoe! Estamos com nossos olhos vendados e nos tornamos zelotes sem base bíblica, enchendo nossas igrejas com joio.
Um dia em breve — e acredito que será realmente em breve — os habitantes deste mundo serão confrontados com acontecimentos e personalidades destinados a abalá-los profundamente. Se os cristãos da Época da Igreja estarão entre esses habitantes ou não, é algo que pode ser questionado, dependendo do momento exato em que ocorrerá o arrebatamento. Entretanto, de qualquer forma, quando o Anticristo aparecer na cena mundial, operando "sinais e maravilhas da mentira", multidões daqueles que meramente professavam serem cristãos afluirão a ele, tomados por grande reverência. Alguns concluem erroneamente que os eleitos da época da igreja estarão na terra, por causa das referências aos eleitos em Mateus 24:24, mas o termo "eleitos" refere-se a todos os que foram escolhidos em Cristo antes da fundação do mundo. [Efésios 1:4] Assim, imediatamente após o arrebatamento, haverá muitos eleitos na Terra, que serão salvos durante o período da Tribulação. Em minha opinião, esses são os eleitos referenciados pelo Senhor. Além disso, muitos estudiosos acreditam que o número de salvos durante a Tribulação será até maior que o número de salvos durante a Época da Igreja, por causa da passagem em Apocalipse 7:9-14, que diz assim:
"Depois destas coisas olhei, e eis aqui uma grande multidão, a qual ninguém podia contar, de todas as nações, e tribos, e povos, e línguas, que estavam diante do trono, e perante o Cordeiro, trajando vestes brancas e com palmas nas mãos... E um dos anciãos me falou, dizendo: Estes que estão vestidos de vestes brancas, quem são, e de onde vieram? E eu disse-lhe: Senhor, tu sabes. E ele disse-me: Estes são os que vieram da grande tribulação, e lavaram as suas vestes e as branquearam no sangue do Cordeiro."
Você e aqueles com quem adora estão entre os eleitos de Deus? Se você sabe sinceramente que é um dos eleitos mas tem dúvidas sobre os outros, deve pensar seriamente em afastar-se do meio deles e buscar a vontade de Deus sobre onde Ele quer que você o sirva. A norma na igreja primitiva eram os grupos pequenos de cristãos que se reuniam nas casas e, para preservar qualquer semelhança na reverência e piedade, parece que isso voltará a ser necessário para muitos de nós hoje. Lembre-se do que o Senhor disse em Mateus 18:20:
"Porque onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles."

Examinando-se Para Ver se Está na Fé



MUITA ATENÇÃO!

Até um gambá pode tentar se passar por um pato, mas amarre os pés de ambos e lance-os em um lago e aquele que fede logo afundará.

"Examinai-vos a vós mesmos, se permaneceis na fé; provai-vos a vós mesmos. Ou não sabeis quanto a vós mesmos, que Jesus Cristo está em vós? Se não é que já estais reprovados." [2 Coríntios 13:5; ênfase adicionada].
Não existe um conhecimento que traga mais conforto e segurança a uma pessoa do que compreender que o Espírito Santo de Deus está presente em sua vida e que Ele não apenas a dirige, mas exerce Sua influência sobrenatural sobre as outras pessoas por meio dela. Qualquer experiência sobre profissão de fé que fique aquém desse padrão está em desacordo com o que a Bíblia diz sobre a genuína salvação oferecida por Jesus Cristo.
Em outras palavras, aquilo que você faz é coerente com aquilo que você diz? Você demonstra por suas ações aquilo que professa com os lábios?
Se o Espírito Santo estiver presente em um indivíduo, Sua presença não ficará escondida, sem nunca ser vista pelos outros. "Nem se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas no velador, e dá luz a todos que estão na casa." [Mateus 5:15]. Mesmo no caso de um crente carnal ou desviado, haverá vestígios da luz de Deus brilhando por meio dele para demonstrar o fato de que ele é um filho de Deus. Mas se essa luz nunca for vista em quem professa ser um cristão, a probabilidade é alta que o indivíduo fez uma falsa profissão de fé.
É exatamente por essa razão que incluímos um teste com doze questões no artigo P "O ABC e XYZ da Salvação". Colocamos esse teste ali para ajudar as pessoas a seguirem a exortação de 2 Coríntios 13:5, citada anteriormente. Se após um exame elas descobrirem que essas características não aparecem em sua vida, devem parar de fazer de conta que são cristãs.
É triste dizer isto, mas a mera crença sem confirmação apropriada é a regra e não a exceção dentro da cristandade atualmente. O que muitos deixam de compreender é que a concordância intelectual com a mensagem do evangelho não resulta em salvação. É bem possível para um indivíduo crer em tudo o que a Bíblia diz, mas nunca experimentar o novo nascimento espiritual. A razão encontra-se no fato que a crença e a confiança absoluta são duas coisas diferentes. Deus conhece nosso coração e, a não ser que venhamos ao ponto do genuíno arrependimento por nossos pecados e recebamos de verdade o Espírito Santo em nossas vidas, uma profissão de fé não tem significado algum.
Arrepender-se não é meramente expressar tristeza pelos erros cometidos. O tipo de arrependimento que é uma parte integral da salvação consiste em uma mudança de direção que somente Deus pode produzir quando a pessoa torna-se uma nova criatura em Cristo. Após isso, a velha vida irá se desvanecer gradualmente à medida que a pessoa crescer na graça e no conhecimento de Jesus Cristo. O pecado continuará a ser um fato da vida e nos perturbará na extensão em que permitirmos que isso aconteça, mas aqueles que são genuínos nunca novamente conseguirão pecar e gostar de viver no pecado por muito tempo! O Espírito Santo não permitirá que um dos filhos de Deus se envolva em comportamento pecaminoso e se sinta à vontade com ele.
Você conversa sobre as coisas espirituais com as outras pessoas? Se realmente tem amor e devoção a Jesus Cristo em seu coração, até mesmo as conversas casuais freqüentemente serão pontuadas por referências a Ele ou àquilo que Ele fez por você. A razão é que quando você está envolvido em um relacionamento afetuoso com alguém, freqüentemente estará pensando na pessoa amada. Mas imagine alguém comprometido em noivado e que nunca menciona sua noiva/noivo; isso é similar aos crentes que nunca falam sobre as coisas de Deus! É um fato trágico que essa é a regra e não a exceção no que se refere a muitas profissões de fé. As pessoas passam pela vida pensando que são cristãs, mas suas vidas são uma total contradição.
Então, quando indivíduos honestos, que já fizeram profissão de fé, embora sem experimentar de verdade, admitem ter sérias dúvidas sobre a validade de sua fé, muito freqüentemente eles recebem garantias por parte de seus amigos cristãos, seus pastores, etc. Sei que isso é verdade porque já cometi esse erro. Aqueles que são nascidos de novo têm um tremendo desejo que todos sejam salvos — de modo que quando uma pessoa parece estar caindo em descrença, é uma reação natural tentar "mantê-la salva". Mas os cristãos devem evitar cometer esse erro. Ajudar alguém a saber que está perdido é obviamente preferível a ajudar um indivíduo a passar pela vida como um hipócrita iludido e afetando adversamente os outros.
Há outro teste para um crente genuíno que não foi incluído nas doze questões do artigo "O ABC e XYZ da Salvação". Ele tem a ver com a paz no coração e na mente que freqüentemente desafia a lógica e a compreensão:
"E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos sentimentos em Cristo Jesus." [Filipenses 4:7; ênfase adicionada].
Se você nasceu na família de Deus e está crescendo na graça e conhecimento de Cristo (2 Pedro 3:18), as chances são realmente boas que você não está excessivamente preocupado em seu coração com o que o amanhã poderá trazer. Qualquer pessoa minimamente informada sabe que este mundo está em um estado terrível e que caminha para o desastre. Mas eu não vejo muitos dos filhos de Deus apertando nervosamente as mãos e se preocupando com isso. Por outro lado, as massas não-regeneradas estão convencidas que o céu está desabando. O ambientalismo radical fez a maioria das pessoas acreditar no aquecimento global e que medidas extremas precisam ser tomadas imediatamente para salvar o planeta Terra. Mas o verdadeiro graveto final que quebrará as costas do camelo quando for adicionado à carga já sobre ele está escondido dentro da cristandade. A Palavra de Deus nos diz claramente que em algum momento haverá um êxodo em massa da fé:
"Ninguém de maneira alguma vos engane; porque não será assim sem que antes venha a apostasia, e se manifeste o homem do pecado, o filho da perdição, o qual se opõe, e se levanta contra tudo o que se chama Deus, ou se adora; de sorte que se assentará, como Deus, no templo de Deus, querendo parecer Deus." [2 Tessalonicenses 2:3-4].
Observe que o grande afastamento será formado por aqueles que professavam ser cristãos. São pessoas que professam, mas que nunca tiveram uma experiência real com Cristo, e que em um movimento cataclísmico sairão em massa do armário, deixando sem emprego os pastores que contribuíram para a ilusão delas! A maioria das igrejas se esvaziará e os crentes genuínos poderão enfrentar a perseguição em uma escala não vista desde os tempos do Império Romano nos dois primeiros séculos da igreja primitiva. Mas no meio de tudo o povo de Deus sempre poderá confiar na seguinte promessa:
"E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito." [Romanos 8:28].
Nos últimos meses temos visto uma seqüência contínua de programas na televisão e filmes no cinema que são claramente gnósticos em suas mensagens e direcionados à cristandade não-regenerada. Aqueles que conheceram as crenças básicas da igreja cristã, mas que não têm fundamento em Cristo são presa fácil para teorias aparentemente plausíveis sobre como eles foram enganados com relação a essas crenças. Sei, a partir de uma pesquisa que já realizei, que as organizações ocultistas estão aumentando seus esforços para desacreditar o cristianismo. Há milênios que Satanás está trabalhando sob o disfarce da "Igreja" para prepará-la para a matança e a vindoura apostasia terá toda a aparência de uma vitória para ele. Mas essa "vitória" terá curta duração e, quando o Senhor Jesus Cristo descer do céu para colocar ordem na casa, o diabo e seus discípulos serão lançados no lago de fogo.
A vitória final será dos redimidos porque é garantida pelo próprio Senhor. Portanto, não devemos nos preocupar excessivamente com o que poderá acontecer amanhã. Nosso destino está, e sempre esteve, nas mãos misericordiosas e infinitamente capazes de nosso Senhor. Destarte, como diz o estribilho de um conhecido hino, apenas continue "descansando nos eternos braços do meu Deus".
"Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize." [João 14:27].

terça-feira, 20 de setembro de 2011

PAULO MENDES CAMPO



Impressionante análise da condição de mulher. E o mais impressionante é que é escrita por um homem: PAULO MENDES CAMPOS. Leia que impressionante “momento de reflexão” ele nos dá neste ensaio publicado em sua obra
(O amor acaba: crônicas líricas e existenciais. 2a ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000, p. 63-65).

Estou só, quer dizer, tenho ódio ao amor que terei pelo desconhecido que está a caminho, um homem cujo rosto e cuja voz desconheço.
Sempre estive duramente acorrentada a essa fatalidade, amor. Muito antes que o homem surja em nossa vida, sentimos fisicamente que somos servas de uma doação infinita de corpo e alma.
O homem é apenas o copo que recebe o nosso veneno, o nosso conteúdo de amor. Não é por isso que o homem me atemoriza, quando aqui estou outra vez, só, em meu quarto: o que me arrepia de temor é este amor invisível e brutal como um príncipe.
Quando se fala em mulher livre, estremeço. Livre como o bêbado que repete o mesmo caminho de sua fulgurante agonia.
A uma mulher não se pergunta: que farás agora da tua liberdade? A nossa interrogação é uma só e muito mais perturbadora: que farei agora do meu amor? Que farei deste amor informe como a nuvem e pesado como a pedra? Que farei deste amor que me esvazia e vai remoendo a cor e o sentido das coisas como um ácido? É terrível o horror de amar sem amor como as feras enjauladas.
É quando o homem desaparece de minha vida que sinto a selvageria do amor feminino. Somos todas selvagens: são inúteis as fantasias que vestimos para o grande baile. Selvagem era a romana que ficava em casa e tecia; selvagens eram as mulheres do harém, as mais depravadas e as mais pudicas; selvagem, furiosamente selvagem, foi a mulher na sombra da Idade Média, na sua mordaça de castidade; mesmo as santas - e Santa Teresa de Ávila foi a mais feminina de todas - fizeram da pureza e do amor divino um ato de ferocidade, como a pantera que salta inocente sobre a gazela. E selvagem sou eu sob a aparência sadia do biquíni, olhando a mecânica erótica de olhos abertos, instruída e elucidada. Pois não é na voluntariedade do sexo que está a selvageria da mulher, mas em nosso amor profundo e incontrolável como loucura. O sexo é simples: é a certeza de que existe um ponto de partida. Mas o amor é complicado: a incerteza sobre um ponto de chegada.
Aqui estou, só no meu quarto, sem amor, como um espelho que aguarda o retorno da imagem humana. O resto em torno é incompreensível. O homem sem rosto, sem voz, sem pensamento, está a caminho. Estou colocada nesse caminho como uma armadilha infalível. Só que a presa não é ele - o homem que se aproxima - mas sou eu mesma, o meu amor, a minha alma. Sou eu mesma, a mulher, a vítima das minhas armadilhas. Sou sempre eu mesma que me aprisiono quando me faço a mulher que espera um homem, o homem. Caímos sempre em nossas armadilhas. Até as prostitutas falham nos seus propósitos, incapazes de impedir que o comércio se deixe corromper pelo amor. Quantas mulheres traçaram seus esquemas com fria e bela isenção e acabaram penando de amor pelo velhote que esperavam depenar. Somos irremediavelmente líquidas e tomamos as formas das vasilhas que nos contêm. O pior agora é que o vaso está a caminho e não sei se é taça de cristal, cântaro clássico, xícara singela, canecão de cerveja. Qualquer que seja a sua forma, depois de algum tempo serei derramada no chão. Os vasos têm muitas formas e andam todos eles à procura de uma bebida lendária.
Li num autor (um pouco menos idiota do que os outros, quando falam sobre nós) que o drama da mulher é ter de adaptar-se às teorias que os homens criam sobre ela. Certo. Quando a mulher neurótica por todos os poros acaba no divã do analista, aconteceu simplesmente o seguinte: ela se perdeu e não soube como ser diante do homem; a figura que deveria ter assumido se fez imprecisa.
Para esse escritor, desde que existem homens no mundo, há inúmeras teorias masculinas sobre a mulher ideal. Certo. A matrona foi inventada de acordo com as idéias de propriedade dos romanos. Como a mulher de César deve estar acima de qualquer suspeita, muito docilmente a mulher de César passou a comportar-se acima de qualquer suspeita. Os Dantes queriam Beatrizes castas e intocáveis, e as Beatrizes castas e intocáveis surgiram em horda. A Renascença descobriu a mulher culta, e as renascentistas moderninhas meteram a cara nos irrespiráveis alfarrábios. O romancista do século passado inventou a mulherzinha infantil, e a mulherzinha infantil veio logo pipilando.
OS tipos vão sendo criados indefinidamente. Médicos produzem enfermeiras eficientes e incisivas como instrumentos. Homens de negócios produzem secretárias capazes e discretas. As prostitutas correspondem ao padrão secreto de muitos homens. Assim somos. Indiquem-nos o modelo, que o seguiremos à risca. Querem uma esposa amantíssima - seremos a esposa amantíssima. Se a moda é mulher sexy, por que não serei a mulher sexy? Cada uma de nós pode satisfazer qualquer especificação do mercado masculino.
Seremos umas bobocas? Não. Os homens são uns bobocas. O homem é que insiste em ver em cada uma de nós - não a mulher, a mulher em estado puro ou selvagem, um ser humano do sexo feminino - o diabo, a vagabunda, a lasciva, o anjo, a companheira, a simpática, a inteligente, o busto, o sexo, a perna, a esportista... Por que exige de nós todos os papéis, menos o papel de mulher? Por que não descobre, depois de tanto tempo, que somos simplesmente seres humanos carregados de eletricidade feminina? 

Claude Levi-Straus


O antropólogo francês Claude Levi-straus faleceu , a menos de um mês de completar 101 anos.

Viveu seus últimos anos recluso em seu apartamento, fazendo raras aparições públicas. Em 2008, para celebrar seu centenário, diversas homenagens foram organizadas na França mas ele não compareceu a nenhuma. Foi o pai do Estruturalismo que tantos debates causou com outras correntes da antropologia, mas o que me leva a UM MOMENTO DE REFLEXÃO foio incomodo que lhe causou as limitações da velhice.

O processo de envelhecer era algo que parecia incomodá-lo profundamente. Sua incapacidade de escrever marcou profundamente seus últimos anos como ele mesmo comentou:
“Para mim hoje existe um “eu” real, que não é mais um quarto ou mesmo a metade de um homem, e um “eu” virtual, que conserva uma idéia do todo. O “eu” virtual prepara um projeto de livro, começa a organizá-lo em capítulos e diz ao “eu” real: ‘Agora é a sua vez de continuar’. E o “eu” real, que não consegue mais diz ao “eu “ virtual: ‘O problema é seu. Só você vê a totalidade’. Minha vida agora se passa em meio a esse diálogo muito estranho”, disse no seu aniversário de 90 anos.
Uma das últimas entrevistas do antropólogo foi concedida ao jornalista Didier Eribon no livro “De Pres et de Loin” (De longe e de Perto). Na ocasião ele demonstrou um sentimento de incompatibilidade com os tempos atuais. “Caminhamos para uma civilização em escala mundial. Nela, provavelmente, aparecerão as diferenças. Não pertenço mais a esse mundo. O mundo que eu conheci, o mundo que eu amei, tinha 1,5 bilhão de pessoas. O mundo atual tem 6 bilhões de humanos. Não é mais o meu.