quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

OS TESTEMUNHAS E OS ASTROS

     A postura do 'pastor' Russell para com a astrologia era um tanto contraditória. Muito embora não a advogasse explicitamente - e até a contestasse - ainda assim, lançou mão, em certas ocasiões, de um linguajar tipicamente astrológico. Não era uma coisa rara entre os adventistas, com os quais Russell associou-se regularmente. Um exemplo clássico desse período se encontra na revista Zion's Watchtower [Torre de Vigia de Sião]  de 1/5/1903, págs. 130 e 131 (em inglês):  
“Nós questionamos seriamente todas as declarações da astrologia; ainda assim, o que se segue - qualquer que seja a fonte das sugestões, até mesmo do próprio adversário - parece marcadamente verdadeiro quanto às nossas expectativas baseadas na Palavra do Senhor. Apenas por essa razão nós o publicamos como segue:... Quando Urano e Júpiter se encontrarem no signo benigno de Aquário em 1914, a era há muito prometida terá tido um belo começo na obra de libertar os homens na busca de sua própria salvação e assegurará a realização final dos sonhos e ideais de todos os poetas e sagas da História."
     Aqui, vemos o uso das posições astrológicas como instrumento de persuasão quanto à correção dos cálculos de Russell, os quais apontavam para a presença de Cristo desde 1874 e para 1914 como a data do 'fim do mundo'. É também digno de nota que o 'pastor', mesmo reconhecendo que tais declarações podiam  provir do 'adversário' - presumivelmente, o diabo - ainda assim, tenha se sentido à vontade para publicá-las simplesmente por estarem em sintonia com suas 'expectativas'. Nesse caso, indagamos: se o leitor examinasse um artigo falando do "signo benigno de Aquário" e das posições de 'Urano' e 'Júpiter', teria alguma dúvida quanto à natureza do assunto? Não encontramos tais expressões até hoje nos horóscopos? Entretanto, isso não é tudo...
     Caso uma pessoa comparecesse ao 'Fotodrama da Criação', veria o seguinte quadro:
     Neste slide vemos representadas todas as posições do zodíaco. Elas serviam como reforço para as previsões futurísticas de Russell. Na verdade, a escatologia dos 'Estudantes da Bíblia' consistia em um 'tripé' - as profecias bíblicas, as medidas da pirâmide e as posições dos astros.  O fascínio por estes últimos não terminaria aí. 
     O 'pastor' já havia publicado, anos antes, seu terceiro volume da série 'Estudos das Escrituras'. Nele, Russell citava Joseph Seiss, um pastor luterano - adepto da piramidologia e da astrologia - o qual publicou, em 1877, a obra O Milagre em Pedra ou a Grande Pirâmide do Egito. A citação dizia:
"Alcyone, então, tanto quanto a ciência tem sido capaz de discernir, pareceria ser 'o trono da meia-noite', no qual todo o sistema de gravitação tem sua base central e de onde o Todo-Poderoso governa o universo.".
     Qual o significado dessas palavras? Vejamos...
     Em 1915, a revista Zion's Watchtower  de 15 de junho (p. 185) publicou um artigo mais pormenorizado sobre o tema:
"... a Ciência Declara que há um Centro muito mais poderoso, ao redor do qual estes incontáveis milhões de sóis giram, acompanhados por seus planetas e satélites. Este grande Centro parece estar associado com as Plêiades, particularmente com Alcyone, a estrela central desse renomado grupo. Por essa razão, tem se sugerido que Plêiades pode representar a Residência de Jeová, o lugar de onde Ele governa o universo. Este pensamento dá nova força à pergunta que o Todo-Poderoso fez ao patriarca Jó: ' És tu que atas as doces influências de Plêiades, ou soltas os laços de Órion? Podes fazer sair as constelações do zodíaco em suas estações?' - Jó 38: 31,32 Parece haver menos estrelas no Norte do que em qualquer outra parte dos céus. De modo que o Norte parece ter recebido uma posição muito proeminente... Nas Escrituras, o Norte parece associado bem de perto ao governo de Jeová sobre a terra."
     O artigo acima refere-se à crença de que Deus habitava uma estrela - Alcyone - a qual pertencia à constelação de Plêiades. Além disso, um ponto cardeal - o Norte - recebia igual destaque. Como vimos, Russell não foi nada original, tendo tomado emprestadas as idéias de um pastor luterano - Joseph Seiss - o qual, por sua vez, as obteve de um escritor anterior a ele, Piazzi Smyth, já mencionado em nosso artigo. É interessante que Russell recorresse à Bíblia a fim de reforçar essas teorias. Causou-lhe, sem dúvida, enorme empolgação a determinação do 'endereço' de Deus. Anos à frente, em 1925, a edição de 15 de agosto da revista A Idade de Ouro [atualmente Despertai!] afirmaria que a cidade celestial de Sião também estava associada à estrela principal de Plêiades.
"Plêiades" - a 'casa' de Jeová?
     O sucessor de Russell - J. F. Rutherford - herdou de seu mestre o gosto pelos astros. Uma prova disso foi o artigo que ele lançou já na edição de 10 de setembro de 1924 de A Idade de Ouro [atualmente Despertai!], pp. 793 e 794, o qual dizia:
"... a posição de Plêiades ao tempo da conclusão da Grande Pirâmide do Egito, a 'Testemunha de Pedra de Deus', é uma proeminente característica desta construção no centro da terra do Egito. Por essa e outras razões, os 'Estudantes da Bíblia' têm boa razão para crer que na região de Plêiades está localizado o trono de Jeová Deus... Se algum lugar no espaço, dentro de Plêiades, é o trono de Deus, então esse grupo é merecedor de nosso mais reverente estudo."
     Aqui são endossadas as idéias do mesmíssimo autor que Russell destacara em seus artigos - Joseph Seiss. Pelo visto, a empolgação com os corpos celestes continuava de vento em popa na sede dos 'Estudantes da Bíblia'. 
     Muito embora Rutherford  levasse ainda mais quatro anos para discernir o que outras instituições cristãs há muito já  percebiam - o caráter profano da piramidologia - o 'reverente estudo' em torno de Plêiades perduraria por mais trinta anos - até 1953, quando uma publicação da Sociedade Torre de Vigia admitiu que ver uma estrela como o 'trono de Deus' poderia levar a uma 'veneração' pelos corpos celestes. Dessa forma, mais um capítulo embaraçoso da história das Testemunhas de Jeová era selado - mas não para sempre. 
     Toda essa excitação em torno dos astros, por mais de meio século, remete-nos à passagem bíblica em Deuteronômio 4: 19:
"Quando levantares os olhos para o céu, e vires o sol, a lua, as estrelas, e todo o exército dos céus, guarda-te de te prostrar diante deles e de render um culto a esses astros..."

AS TESTEMUNHAS E AS PIRAMIDES.

     Russell era homem extremamente criativo. Todavia, não foi original em muitas de suas idéias e superstições. Um exemplo clássico era sua fascinação por pirâmides. De quem a teria herdado? Bem, há duas fontes em potencial: o Adventismo e as sociedades esotéricas. Examinemos cada uma...
     As pirâmides eram objeto de estudo por parte dos Adventistas, no século 19. Em 1876, o  professor C. Piazzi Smyth - um astrônomo e piramidólogo anglo-israelita - publicou um artigo sobre a piramidologia no periódico Bible Examiner, de George Storrs, o associado de Russell  que mencionáramos há pouco (Proclamadores, p. 46). Algum tempo depois, o próprio Storrs escreveu artigos sobre esse tema no periódico Herald of Life and the Coming Kingdom [Arauto da vida e da Vinda do Reino]. Não é difícil deduzir que ele e o 'pastor' compartilharam o estudo dessa matéria, pois o próprio Russell, dedicaria, em 1897, todo o capítulo 10 do volume III de Studies in the Scriptures [Estudos das Escrituras] ao significado das medidas da Pirâmide de Gizé quanto ao cumprimento das profecias bíblicas. Já publicamos uma foto dessa obra neste artigo, no tópico 'A Lâmpada Oriental'.
     O livro Proclamadores, na p. 201, faz uma confissão do envolvimento de Russell com a piramidologia, muito embora procure atenuar a importância do fato por classificá-lo como um simples 'pensamento' dele por 'apenas' 35 anos. Mas, era realmente assim - um 'pensamento'? Ou era uma doutrina fundamental? Afinal, quanto destaque se deu à piramidologia no movimento das Testemunhas de Jeová - em um período, durante o qual se diz que Jesus Cristo estava a examiná-lo e aprová-lo? Este é o nosso próximo enfoque.
     Conforme mencionáramos anteriormente, foi apenas na última década do século 20 que a Sociedade Torre de Vigia exumou alguns capítulos embaraçosos de sua história, por meio da obra Proclamadores (1993) - ainda assim, de uma forma bastante sucinta e por meio de eufemismos, como já comentamos. Entretanto, após o tema 'piramidologia' ser continuamente esmiuçado na internet - em forma de denúncias - a organização julgou conveniente abordar mais uma vez o 'romance' entre Russell e as pirâmides. Ante a impossibilidade de negar os fatos, amplamente apoiados em provas documentais, criou-se uma versão piedosa dos mesmos, colocados em um contexto de 'purificação espiritual'. Vejamos o que diz este curioso artigo em A Sentinela de 1/1/2000, p.9 :
     "Em 1886, quando C. T. Russell publicou um livro que passou a ser chamado  'O plano Divino das Eras', este livro continha uma tabela relacionando as eras da humanidade com a Grande Pirâmide do Egito. Pensava-se que este monumento do faraó 'kufu' [Quéops] fosse a coluna mencionada em Isaías 19: 20... Que relação podia ter uma pirâmide com a Bíblia? Ora, por exemplo, pensava-se que o comprimento de certas passagens na Grande Pirâmide indicava o tempo do começo da 'Grande Tribulação' de Mateus 24: 21, conforme se entendia então. Alguns Estudantes da Bíblia ficaram absortos em medir certos detalhes da pirâmide para descobrir assuntos tais como o dia em que iriam para o céu!"
     Mais uma vez os autores preferem a palavra 'pensamento', ao invés de 'ensino' ou 'doutrina'. Também o sujeito das orações é omitido ou obscurecido em alguns trechos pelas expressões "pensava-se" ou "entendia-se" - um recurso já consagrado pelas publicações das Testemunhas de Jeová ao abordarem partes indesejáveis de sua história. Quem 'pensava'? Quem 'entendia'? A resposta é uma só - A ORGANIZAÇÃO! E não só entendia como ensinava.
     Vejamos agora a tabela à qual o artigo se refere:
     Conforme mostra a figura, Russell criou um elaborado diagrama esotérico para a interpretação das profecias bíblicas. Ele pode ser visto na p. 162 do livro Proclamadores. Curiosamente, o texto ao redor da figura faz referência a ela sem dar uma só palavra sobre o significado do desenho em forma de pirâmide. Deveras, seria embaraçoso fazê-lo, pois nada representa tão bem a fusão da escatologia adventista com os símbolos maçônicos quanto esta tabela.
     O artigo de janeiro de 2000 faz referência ao primeiro volume de 'Estudos das Escrituras', publicado em1886, o qual continha o diagrama acima. Em 1897, o recém-lançado terceiro volume - Venha o Vosso Reino - foi mais longe ainda, chamando a Pirâmide de Quéops de 'Testemunha de Jeová' (p. 320), mais de 30 anos antes de J. F. Rutherford  - o sucessor de Russell - ter adotado este nome para os então 'Estudantes da Bíblia'. Todavia, o fascínio pelas pirâmides não pararia por aí. Em 1915, foi publicada pela organização uma obra de 438 páginas, quase homônima ao volume 1 -- The Divine Plan of Ages as Shown in the Great Pyramid ("O Plano Divino das Eras Como Mostrado na GRANDE PIRÂMIDE") -- provavelmente de autoria de Morton Edgar -- uma edição de visual mais atraente do que o primeiro volume de Russell e totalmente inspirada no livro dele. Eis a capa:
     Aqui, novamente, distinguimos a figura de uma pirâmide. Seria justificável o lançamento de mais um livro sobre o tema, caso se tratasse apenas de um 'pensamento' individual de Russell? A propósito, o estudo das pirâmides estava entre as 'verdades preciosas' em comum com os 'irmãos maçons', diante dos quais o 'pastor' discursou em 1913.
     Em 1914, se uma pessoa comparecesse ao 'Fotodrama da Criação' (Proclamadores, pp. 56 e 57), veria, em um dos slides, a seguinte imagem:
     Trata-se da esfinge egípcia, tendo ao fundo a Grande Pirâmide de Gizé. A essa altura, desnecessário é frisar a importância destes monumentos para o 'pastor' Russell. Caso a pessoa, em seguida, entrasse em um templo Rosacruz ou maçônico, se depararia com o seguinte cenário:
     Percebe o leitor a similaridade? Não parecem as duas imagens provir de um mesmo ambiente? No entanto, a primeira imagem era exposta ao público como 'alimento espiritual' oriundo do cristianismo, livre de contaminações pagãs.
     Até mesmo na arquitetura da Sociedade Torre de Vigia podemos encontrar indícios de seu passado envolto em piramidologia. Observemos a foto abaixo:
     Este prédio foi construído em 1927 por J. F. Rutherford . Se repararmos bem, notaremos, no alto da fachada, uma série de adornos em forma de pequenas pirâmides. Seria apenas uma coincidência?
     Para concluirmos este tópico, apresentaremos a prova definitiva do profundo envolvimento de Russell com a piramidologia. Trata-se de seu túmulo:
     Este maciço monumento em forma de pirâmide jaz ao lado dos restos mortais de C. T. Russell  há mais de 80 anos. Contém o nosso já conhecido símbolo da cruz coroada, bem como o nome  'Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados'. Saberia o leitor identificar as edificações ao fundo? Pois trata-se do grande complexo maçônico de Pittsburgh. Ao que tudo indica, não poderia haver vizinhança mais apropriada. 
     Uma pirâmide de pedra era, inquestionavelmente, uma homenagem honrosa para o 'pastor' Russell, pois, em vida, nenhum outro objeto esotérico exerceria tanto magnetismo sobre ele, tendo-o motivado, inclusive, a viajar milhares de quilômetros para conhecer pessoalmente a Grande Pirâmide de Gizé . Eis as fotos dessa tour mística, realizada em 1912:
     Na primeira foto, vemos Russell e sua comitiva defronte ao grande monumento egípcio - a 'bíblia de pedra' como era chamado. Na segunda foto, o 'pastor' recebe ajuda ao escalar os degraus da Grande Pirâmide. Após sua peregrinação a este lugar 'sagrado', ele aproveitou a ocasião para proferir seu célebre discurso "Uma Testemunha de Deus - a Grande Pirâmide do Egito" - publicado em A Sentinela de junho de 1912. Suas palavras devem ter tido forte efeito sobre aqueles de seu tempo. Russell apegou-se ferrenhamente a tal crença até sua morte, em 1916. O monumento fúnebre no Cemitério Rosemont (em Pittsburgh) preservou no tempo a 'marca registrada' do russellismo, resistindo até hoje como prova insofismável dela.
     Ante o peso das evidências, a organização defende-se por enfatizar que abandonou a piramidologia em 1928 - o que é verdade. Contudo, é difícil aceitar - de acordo com a doutrina atual das Testemunhas de Jeová - que, durante o assim chamado período de inspeção de Jesus Cristo (1914 - 1918), tenha ele dado seu 'carimbo' de aprovação aos 'Estudantes da Bíblia', fazendo 'vista grossa' a um envolvimento tão patente com aquilo que a organização hoje chama de 'satânico'.

A TORRE DAS TESTEMUNHAS DE JEOVÁ.

     Ela é a própria marca registrada das Testemunhas de Jeová, pois consta de seu selo e publicações até hoje e faz parte de seu próprio nome como instituição oficial - Sociedade Torre de Vigia. A entidade possui um logotipo em forma de torre, cabendo sanções civis sobre aqueles que o utilizarem sem sua permissão. Trata-se de apenas mais um símbolo 'decorativo', sem qualquer conexão com o paganismo? A resposta é, novamente, não! Os autores da publicação Proclamadores reconhecem que o uso religioso da torre é muito anterior a Russell:
"A expressão Torre de Vigia não é exclusividade dos escritos de Russell nem das Testemunhas de Jeová. George Storrs publicou um livro na década de 1850 intitulado The Watchtower... [A Torre de Vigia...]. Esse nome foi também incorporado no título de vários periódicos religiosos..." - Proclamadores, p. 48
     O autor citado nesta nota - George Storrs - foi amigo pessoal e colaborador do 'pastor' Russell, tendo exercido grande influência sobre ele (conforme é admitido na mesma obra, em um quadro da página 46). Também é digno de nota que Storrs tenha sido uma das figuras mais importantes do Adventismo norte-americano, bem como adepto da Ordem Rosacruz. Embora não sejam citadas, as publicações dos Rosacruzes e dos Maçons certamente estão entre os 'periódicos religiosos' mencionados pelo livro Proclamadores - fato que facilmente poderia passar despercebido pelo leitor desta lacônica nota de rodapé. Por exemplo, vejamos o que diz a obra Dicionário da Franco-Maçonaria (Daniel Ligou - 1987 - página 1181, em espanhol):
"Torre de Vigia - Símbolo próprio da franco-maçonaria de pedra (torre redonda) e de madeira (torre quadrada ou poligonal)... A Torre representa a Palavra e tem um significado especialmente radiante. A luz brota de maneira circular e em todos os planos..."
     Curiosamente, o texto acima parece descrever com precisão o facho de luz que emana da torre de vigia representada na capa da revista A Sentinela  por cerca de 40 anos (de 1891 a 1391). Castelos e torres medievais - juntamente com armaduras - também fazem parte dos símbolos templários, conforme mostram algumas ilustrações, colhidas de sites ligados ao tema. É importante lembrar que a Ordem Templária é considerada precursora da Maçonaria. Observemos as figuras abaixo: 
     Vemos, à esquerda, a figura de um cavaleiro lendário em meio a uma paisagem sombria, onírica, com um castelo medieval ao fundo (site dos cavaleiros templários); no centro, a capa de A Sentinela de 15/7/1930, consistindo na gravura de uma torre medieval - também em um cenário sombrio, com janelas em forma de cruz -, e à direita, um brasão franco-maçônico no qual estão representadas diversas torres de vigia, em um padrão quase idêntico ao da capa da revista. Mera coincidência? Observemos agora duas outras figuras:
     À esquerda, o logotipo atual da Sociedade Torre de Vigia; à direita, as ruínas de um castelo templário, na Itália. É possível, a esta altura, negar a grande  similaridade entre certos símbolos esotéricos (medievais e maçônicos) e aquele adotado pela organização central das Testemunhas de Jeová e mantido (com algumas alterações) até hoje? Um passatempo bem comum entre nós, o jogo de xadrez, também tem sua origem nos temas medievais: rei, rainha, bispo, cavalo e, naturalmente, a torre. Nesse caso, de quem o 'pastor' Russell teria tomado emprestados o símbolo e o nome 'torre de vigia' - dos Adventistas ou dos Maçons? Ele aparentava ter intimidade com ambos.

OS SELOS DAS TESTEMUNHAS DE JEOVÁ.

     Em nossa jornada pela simbologia da Sociedade Torre de Vigia, passaremos a examinar seus selos oficiais, pois também neles encontramos indícios de influências ocultistas. Ei-los:
     O selo à esquerda foi criado por Russell, em 1884, e o segundo selo foi adotado pelo terceiro presidente da Sociedade, Nathan H. Knorr, em 1956. Ambos constam basicamente de uma coroa circular em volta de uma torre de castelo medieval com uma paisagem ao fundo. No primeiro, a paisagem é de um nascer do sol no deserto e no segundo, uma região montanhosa sob um céu nublado. A faixa externa contém a razão social da entidade. A cercadura externa foi reforçada no segundo selo, dando-lhe um aspecto serrilhado. Agora, atentemos para os detalhes: no segundo selo, os dois pontos em forma de sol separando a inscrição Zion's Watch Tower  e Tract Society foram substituídos por uma pequena estrela de cinco pontas - também conhecida como pentagrama. Trata-se de um antigo e conhecido símbolo ocultista, também venerado pela Maçonaria. Alguns têm sugerido que os triângulos pequeninos da cercadura poderiam ser uma alusão às pirâmides, tão apreciadas pelo fundador da entidade. Como a piramidologia foi abandonada em 1928 - conforme veremos, mais adiante - não se pode afirmar categoricamente  que esta tenha sido a razão para a escolha dos adereços. Todavia, achamos conveniente consultar os selos das ordens esotéricas, a fim de avaliar se há similaridades. Vejamos:
     O selo da esquerda pertence à Grande Loja Francesa (GLF), o do centro, à Grande Loja Nacional Francesa (GLNF) e o da direita, à Grande Loja Mista Universal (GLMN). Vemos que o aspecto  é similar em certos detalhes: todos apresentam o pentagrama em diversas disposições, sendo que o terceiro o exibe exatamente na mesma posição em que ele aparece no segundo selo da Sociedade Torre de Vigia. O selo do centro exibe um escudo medieval com três torres de castelo. Examinemos agora o selo do Grande Colégio dos Ritos:
     Vemos que a cercadura é idêntica ao do selo da Sociedade. Seria apenas uma coincidência? Certos símbolos de instituições francesas exibem até hoje alguns elementos oriundos dos ritos maçônicos, pois foram criados sob forte influência dos francomaçons. Desse modo, é razoável perguntar: em que se inspiraram os criadores dos selos da Sociedade Torre de Vigia?

A SEITA MALIGNA TESTEMUNHAS DE JEOVÁ.

     Apenas nos anos 90, a Sociedade Torre de Vigia trouxe ao conhecimento de sua comunidade atual alguns dos símbolos utilizados pela organização ao longo de sua história. A publicação Proclamadores - encarregada dessa missão - expõe, na p. 200, um deles: a cruz coroada, presente em diversas publicações das Testemunhas até 1931. O livro classifica-a de 'símbolo decorativo', do qual a instituição abriu mão supostamente após o entendimento de que as ações - antes dos símbolos - deveriam identificar o cristão e após a 'descoberta' de que Cristo morreu em uma estaca única, não em uma cruz. Mas, tratava-se  apenas de uma inocente "decoração"? 
     A partir deste momento, examinaremos as ocorrências da cruz coroada na simbologia de diferentes instituições, ao mesmo tempo em que buscaremos determinar a origem deste e de outros símbolos 'decorativos' empregados pelas Testemunhas de Jeová em seus primórdios.
     Observemos as gravuras abaixo:
     As três figuras representam claramente o símbolo há pouco mencionado - a cruz coroada. A primeira foi obtida da capa de uma revista A Sentinela de 1911, a segunda, do Fotodrama da Criação (1914) e a terceira é a foto de um adorno em forma de broche, comum naquele tempo. Os ramos em volta do símbolo não existiam no princípio, tendo sido introduzidos posteriormente (a partir de 1895) como representativos da  'dedicação'. Por volta dessa época, ao se exibir a cruz coroada, também eram comuns as palavras 'Sem cruz, não há coroa!". Isto significava que, sem a aceitação de que Cristo morreu por nós na cruz, tampouco a pessoa seria contada digna de ser herdeira dele como um dos 144.000 escolhidos. Os então 'Estudantes da Bíblia' costumavam portar o broche como símbolo de sua "unção". Todavia, segundo um membro da Grande Loja Maçônica da Pensilvânia-EUA, a cruz e a coroa representam a união entre igreja e estado. Por outro lado, a obra The Masonic Report  ["O Relatório Maçônico"], de C. F. McQuaig (1976, p. 34), afirma que, na verdade,  a cruz coroada tem para os maçons um significado fálico (sexual).
     Façamos agora uma  análise comparativa entre os símbolos cultivados por sociedades místicas diversas e aqueles usados pelas Testemunhas de Jeová ao longo de sua história. Conforme vimos, caso uma pessoa comparecesse a uma apresentação do 'pastor' Russell em 1914, veria à sua frente a cruz coroada na tela do "Fotodrama", tal qual exibida acima. Se, mais tarde, a mesma pessoa entrasse em um templo maçônico - lá mesmo, na Pensilvânia - encontraria o seguinte cenário:
Púlpito da Grande Loja Maçônica do rito de York - Pensilvânia (EUA)
     Queira o leitor observar a figura no alto do palco, entre os lustres. Parece-lhe familiar? Não há dúvida de que se trata do mesmíssimo símbolo encontrado nas publicações e nos slides do 'pastor' Russell. Seria apenas uma coincidência - um ornamento comum a uma época - ou tal símbolo faz parte da liturgia maçônica? A resposta pode ser facilmente obtida da própria Maçonaria. Observemos as ilustrações abaixo:
     As duas primeiras gravuras foram obtidas de sites franco-maçônicos americanos tradicionais, praticantes do assim chamado rito de York (pois há também o rito 'escocês'). A terceira gravura provém de uma loja maçônica italiana. Além da cruz coroada, vemos representadas a 'cruz de Constantino' (com a célebre declaração "Com este símbolo vencerás") e as espadas medievais. Examinemos agora duas fotos obtidas, respectivamente, do site oficial e de um CD dos antigos 'Estudantes da Bíblia', dos quais originaram-se as Testemunhas de Jeová:
     Indiscutivelmente, o símbolo em questão é o mesmo - a cruz coroada.  Isto significa que os atuais 'Estudantes da Bíblia' continuam fiéis à sua origem. A seguir, fornecemos  o emblema maçônico de uma loja do rito de York:
     Repare o leitor que, ao centro do emblema, encontramos, mais uma vez, a cruz coroada, à frente do compasso, das espadas e do triângulo. Como a Maçonaria é bem anterior ao nascimento de Russell, é lógico que ele copiou o símbolo e o adaptou ao seu movimento religioso. Contudo, como obteria permissão ou faria jus a isso? Uma forma poderia ser - tendo obtido o mais alto grau da Maçonaria.  Todavia, ela não é a única entidade a fazer uso deste e de outros símbolos. Examinemos também os símbolos de uma outra sociedade mística, os Rosacruzes. Há uma polêmica quanto à sua real origem. Uma corrente histórica atribui o nome da ordem ao seu suposto fundador,  Christian Rosenkreutz (1378-1484). Cronologicamente, porém, a ordem Rosacruz é mencionada pela primeira vez na Alemanha, no século 12. Eis alguns de seus símbolos:
        Aqui, mais uma vez, distinguimos a cruz coroada. Em face do exposto, não nos resta senão concluir que ela NÃO é apenas o 'símbolo decorativo' que a Sociedade Torre de Vigia menciona no livro Proclamadores, mas trata-se de um emblema do mais profundo teor esotérico, místico e espiritualista. E não é exclusivo da Maçonaria ou do Rosacrucianismo, mas tem papel destacado também na feitiçaria e em seitas místicas menores. Para exemplificar, encontramos um interessante achado na capa de um dos livros de Mary Baker Eddy (1821-1910), fundadora da "Igreja da Ciência Cristã" - surgida no mesmo país do movimento de Russell e apenas dois anos antes do nascimento da Sociedade Torre de Vigia. Assim como o 'pastor', ela também foi membro da Igreja Congregacional, antes de fundar a sua própria. Eis o símbolo a que nos referimos:
     Novamente surge a cruz coroada diante de nossos olhos. Ao redor dela - em vez dos ramos da Torre de Vigia ou do brasão da Maçonaria - há uma faixa com as inscrições "Curar os Doentes", "Levantar os Mortos", "Limpar os Leprosos" e "Expulsar Demônios". Concluímos, assim, que cada instituição preservou o símbolo básico da cruz e da coroa, complementando-o com adereços mais adequados à sua corrente ideológica. Em outras palavras, os 'modismos' da cultura em que se encontram os fundadores de movimentos religiosos incorporam-se à liturgia por eles criada, gerando pontos em comum entre as diversas instituições nascidas de uma mesma época e em um mesmo país, ainda que defendam ideologias distintas, até mesmo conflitantes. Esta tese é consistente com o fato de os diversos movimentos religiosos que ramificaram a partir do Adventismo norte-americano - entre eles, o de Russell - terem herdado de seu 'tronco' original a mesmíssima simbologia. Desse modo, indagamos: não deveria afligir a consciência de uma Testemunha de Jeová sincera o fato de o fundador de sua religião e diversos místicos - entre eles, Mary Baker Eddy - terem, por assim dizer, 'bebido da mesma fonte'?